O Homem e o Vinho

Que bem te fiz,
Ó vinho terno
Para que me aqueças o coração,
O cobertor que me abraça
Na noite fria de inverno?

Ó homem ingênuo,
És minha ferramenta,
Não me existe maior prazer
Que mergulhar-me profundamente
Em tua ampla goela sedenta,

Bebida amiga,
Dê-me seu conselho
Como posso eu retribuir
A sublimação deste mundo incolor,
A passagem para o belo céu vermelho?

Não te enganes,
Homem simplório,
Não há favor no que faço
Se for teu o prazer de ter-me no peito
Embriagar o mundo é meu espólio

Pois abuses do meu corpo,
Vinho refulgente,
Expulse-me de vez do mundo pálido,
Guie-me para o caminho sem volta,
Para o infinito universo dormente

Assim pudera, logo faria
Ó homem mundano,
Mas irônica é a vida
O prazer só há se houver
O sofrimento quotidiano

Não há então, meu bom vinho
Razões pra me ansiar,
Se para preencher-me de êxtase
Necessitas de amargura
Motivo não há de faltar

Pobre homem,
Abre tua garganta,
Neste momento me atiro
Torno-me agora a ébria alma
Do teu frágil corpo que decanta

Venha vinho amante,
Desejo provar dos teus sabores
Arrebente-me o corpo
Violente-me a consciência
Possua-me sem pudores



Belo Horizonte, junho 2008

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