Numa madrugada, na Rua da Bahia

As cores são mais cores
O peso do peito é leve,
Leve-o.


A dureza enfraquece,
A frieza se recolhe.
O espaço agora é invadido
Pela leveza impávida.


A Rua da Bahia pára
Enquanto a Terra gira.


A luz vermelha não se apaga
Só, no alto, testemunha
Sua homóloga do chão,
Que diferente dela,
Não nasce de eletricidade,
É espontânea,
Som de encontro
De solidão.


Pálida, frágil, absurda.
Pequena, holofote azul.

Um peito morto revela,
O poder imenso
Do cheiro guardado
Da mágica incrível.
Esquecido num baú antigo,
O peito é conservado
E o artefato quando aberto,
Exala o aroma
De pó acumulado.

O peso-morto ressuscita,
Reergue-se,
Quando lhe tirado o peso,
Levanta-se e percebe
Que hibernou, não morreu.
O inverno está no fim

Belo Horizonte, dezembro 2008

Poeminha Cafona sobre a Saudade

Ironicamente
Faz-se presente
No momento mais ausente


Nasceu há muito
E não pretende envelhecer
A saudade há de vencer

Belo Horizonte, junho 2008

Bateaux Brulés

À chaque fois
Le monde s’arrete
Ils le savent
La magique se repète

La raison
Je la tiens
Tes yeux
Sont près des miens



Belo Horizonte, julho 2008

Ela, a Despedida

Tu chegas assim denovo
Abres alas na sexta
Mascarada de Reencontro

Escondendo a verdadeira face
Na última fila do bloco
Do desencontro

E por ser um menino
Viro amante
Acredito mais uma vez
No teu disfarce elegante

Entrelaço-me contigo
Esqueço do antigo
Na troça que sobe ladeira
Sou teu melhor amigo

Porém, por sadismo natural
não há bem sem mal,
nem quarta de cinzas
Sem carnaval

Daí me aparece ela
Sem fantasia, despida
Invejosa e insistente
A Despedida


Saturei-me de ti
Despedida
Deixe-me sonhar sozinho
Iludir-me da ausência tua
na minha vida

Mas já que é
pra estar sempre lá
Que volte tarde,
diga que não voltas já

Como um veneno de serpente
tu me fazes
Obrigatoriamente

Despedir-me assim:
Usando de ti, ironicamente,
Pra te ter longe de mim



Belo Horizonte, fevereiro 2008

Objetivo

Eu só busco
Achar não me convém
Buscar me basta,
Ao fim o meu desdém

Se há o final da linha
Tirem-me da rota
Mintam-me o caminho
A verdade não me importa



Belo Horizonte, julho 2008

Amém

Minha religião tem Baco no céu
As Marias não são virgens
As noivas não usam véu

Minha igreja tem Vinícius como profeta
Seu templo é o bar
 
Pecado é andar em linha reta


O dízimo é pago sem contestação,
Os dez por cento são doados
Religiosamente
Pra gorjeta do garçom



Belo Horizonte, julho de 2008

O Homem e o Vinho

Que bem te fiz,
Ó vinho terno
Para que me aqueças o coração,
O cobertor que me abraça
Na noite fria de inverno?

Ó homem ingênuo,
És minha ferramenta,
Não me existe maior prazer
Que mergulhar-me profundamente
Em tua ampla goela sedenta,

Bebida amiga,
Dê-me seu conselho
Como posso eu retribuir
A sublimação deste mundo incolor,
A passagem para o belo céu vermelho?

Não te enganes,
Homem simplório,
Não há favor no que faço
Se for teu o prazer de ter-me no peito
Embriagar o mundo é meu espólio

Pois abuses do meu corpo,
Vinho refulgente,
Expulse-me de vez do mundo pálido,
Guie-me para o caminho sem volta,
Para o infinito universo dormente

Assim pudera, logo faria
Ó homem mundano,
Mas irônica é a vida
O prazer só há se houver
O sofrimento quotidiano

Não há então, meu bom vinho
Razões pra me ansiar,
Se para preencher-me de êxtase
Necessitas de amargura
Motivo não há de faltar

Pobre homem,
Abre tua garganta,
Neste momento me atiro
Torno-me agora a ébria alma
Do teu frágil corpo que decanta

Venha vinho amante,
Desejo provar dos teus sabores
Arrebente-me o corpo
Violente-me a consciência
Possua-me sem pudores



Belo Horizonte, junho 2008

Torpor

Por maior que fosse o poeta,
E mais perfeita sua poesia
Viveria ele em eterna agonia
Em vão com sua arte inquieta

A metáfora mais esperta
Ao descrever minha euforia
Seria sempre uma ironia
Inevitavelmente incorreta

Palavras humanas
Por si só, sejam como for
Serão sempre levianas

Pra entender este torpor
Tome um jarro de absinto!
É assim que eu me sinto,
Meu amor!



Belo Horizonte, Dezembro 2008